Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?
Chove...
Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.
José Gomes Ferreira
Imagem retirada da net
segunda-feira, setembro 05, 2011
Céu vazio, Sol gelado.
Vida sem cor, sem sabor.
Deserto que avança, inexorável, seca, asfixia, destroi.
A solidão, por vezes, traz a calma e o alívio aos dias sem sentido…
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
(...)
Sentiu-se melhor depois da decisão de ser apenas mais um dos do bando. Daí em diante não haveria mais laços a prendê-lo à força que o levara a aprender, não haveria mais desafios nem mais fracassos. E era bom deixar de pensar, e voar no escuro em direção às luzes da praia.
"ESCURO!" A voz irreal estalou em alarma. "AS GAIVOTAS NUNCA VOAM NO ESCURO!"
Mas Fernão não prestava atenção e não a ouvia. "É bom", pensava. "A Lua e as luzes brincando na água, atirando à pequenos lampejos, e tudo tão calmo, tão parado..."
"Desça! As gaivotas nunca voam no escuro! Se estivesse destinado a voar no escuro teria olhos de coruja! Teria mapas em vez de miolos! Teria as asas curtas do falcão!"
Envolto na noite, a trinta metros no ar, Fernão Capelo Gaivota... pestanejou. A dor e as resoluções desvaneceram-se.
Asas curtas. AS ASAS CURTAS DO FALCÃO!
"É isso! Como fui louco! Tudo o que preciso é de uma asinha curta, tudo o que preciso é fechar as asas o mais que puder e voar só com as pontas! ASAS CURTAS!"
(...)
"Quando souberem do triunfo", pensava, "ficarão loucos de alegria. Como vale a pena agora viver! Em vez da monótona labuta de procurar peixe junto dos barcos de pesca, temos uma razão para estar vivos! Podemos subtrair-nos à ignorância, podemos encontrar-nos como criaturas excelentes, inteligentes e hábeis. Podemos ser livres! PODEMOS APRENDER A VOAR!"
(...)
— Fernão Gaivota — disse o Mais Velho — é chamado ao centro por vergonha aos olhos das gaivotas suas semelhantes!
Foi como se lhe batessem com uma tábua. Os joelhos enfraqueceram-lhe, um enorme rugido ensurdeceu-o. "Ser chamado ao centro por vergonha? Impossível! O triunfo! Eles não podem compreender! Estão errados, estão errados!"
— ... pela sua desastrada irresponsabilidade — entoava a voz solene —, por violar a dignidade e a tradição da família das gaivotas...
ser chamado ao centro por vergonha significava que seria banido da sociedade das gaivotas, desterrado para uma vida solitária nos Penhascos Longínquos.
— ... um dia Fernão Capelo Gaivota aprenderá que a irresponsabilidade não compensa. A vida é o desconhecido e o desconhecível, mas não podemos esquecer que estamos neste mundo para comer e para nos mantermos vivos tanto quanto pudermos.
(...)
Fernão Gaivota passou o resto dos seus dias sozinho, mas voou muito além dos Penhascos Longínquos. A solidão não o entristecia. Entristecia-o que as outras gaivotas se tivessem recusado a acreditar na gloria do vôo que as esperava. Recusaram-se a abrir os olhos e ver.
Richard Bach in Fernão Capelo Gaivota Foto retirada da net
Passamos pelas coisas sem as ver, gastos, como animais envelhecidos: se alguém chama por nós não respondemos, se alguém nos pede amor não estremecemos, como frutos de sombra sem sabor, vamos caindo ao chão, apodrecidos.
Sós, irremediavelmente sós, como um astro perdido que arrefece. Todos passam por nós e ninguém nos conhece.
Os que passam e os que ficam. Todos se desconhecem. Os astros nada explicam: Arrefecem
Nesta envolvente solidão compacta, quer se grite ou não se grite, nenhum dar-se de outro se refracta, nenhum ser nós se transmite.
Quem sente o meu sentimento sou eu só, e mais ninguém. Quem sofre o meu sofrimento sou eu só, e mais ninguém. Quem estremece este meu estremecimento sou eu só, e mais ninguém.
Dão-se os lábios, dão-se os braços dão-se os olhos, dão-se os dedos, bocetas de mil segredos dão-se em pasmados compassos; dão-se as noites, e dão-se os dias, dão-se aflitivas esmolas, abrem-se e dão-se as corolas breves das carnes macias; dão-se os nervos, dá-se a vida, dá-se o sangue gota a gota, como uma braçada rota dá-se tudo e nada fica.
Mas este íntimo secreto que no silêncio concreto, este oferecer-se de dentro num esgotamento completo, este ser-se sem disfarce, virgem de mal e de bem, este dar-se, este entregar-se, descobrir-se, e desflorar-se, é nosso de mais ninguém.
António Gedeão, in Teatro do Mundo, 1958 Foto retirada da net
A minha forma humana está adormecida. Repousa nos doces lagos da inconsciência. Vagueio pela noite, com o ânimo de um condenado que caminha para a execução. O céu apresenta-se negro, cor com a qual não simpatizo. Recorda-me momentos que prefiro esquecer, dá-me calafrios. O manto de estrelas, admito, é uma bela visão, mas perturbadora por causa da cor de fundo. Porque é que não se pode colocar um fundo azul escuro? Ninguém me sabe responder... Cruzo-me com anjos, demónios, santos, pecadores, inocentes, estafermos, aldrabões. Estou cansado. A eternidade é cansativa. A luz da noite fere-me os olhos. Quero fechá-los, quero dormir, descansar. Quero um pouco de paz... Só não sei como começar.
(...) And if I show you my dark side Will you still hold me tonight? And if I open my heart to you and show you my weak side What would you do? Would you sell your story to Rolling Stone? Would you take the children away And leave me alone? And smile in reassuranceas you whisper down the phone Would you send me packing Or would you take me home? (...)
Ain't no sunshine when she's gone
It's not warm when she's away
Ain't no sunshine when she's gone
She's gone much too long
Any time she goes away
Ain't no sunshine when she's gone
Wonder if she's gone to stay
Ain't no sunshine when she's gone
And this house just ain't no home
Anytime she goes away
I know
She's gone to stay
It's breakin' me up
Anytime she goes away
Gotta leave the young thing alone
There ain't no sunshine when she's gone
Oi, quer teclar?
Podemos tentar... De onde você é? Quantos anos? O que faz? Do que gosta?
Nossa... quanta pergunta!
Tudo bem, eu exagerei, acho que lhe assustei.
Aí eu conversei com ele... um dia, dois dias... um ano... Um verão... um Outono...
Era pela manhã no começo... depois viramos tudo pro avesso
Era de tarde... de noite... de madrugada. Não tinha mais hora marcada.
Eu corria pro computador e quando não o encontrava... Ai que dor!
Eu gostava das suas palavras...
Até daquela risada que eu não podia ouvir, mas que o meu coração podia sentir.
Oieeeeee... tava te esperando!!!
Oi amor... eu tava trabalhando. Escrevi uma coisinha pra você, quer ver?
Claro, pode mandar, eu sei que vou gostar.
"Quando amanhece o dia e você não vem, o meu sol não brilha e eu choro pela falta da sua companhia."
Ah... que lindo... tô aqui lhe sentindo!
Como o amor virtual... não tem igual
A gente diz tudo que pensa, tudo que precisa, tudo que é permitido e até o que é proibido.
Ele é bonito, ela é maravilhosa. Ele é sensual, ela é gostosa.
Ele é inteligente, ela tem um jeitinho carente.
Ele é alegre, ela é ciumenta, ele anima, ela movimenta.
Amor... eu tô com saudade
Eu também, tô até com vontade...
Hum...então vamo lá... tô pronta pra começar!
Era sexo virtual toda hora. E era gostoso... virava uma história.
Era fantasia misturada com alegria. Mas também rolava amor...
E quando acabava, restava um gostinho de dor.
É que não tinha em seguida o aconchego
Nem o cigarro... Clicava-se num botão e apagava-se a emoção.
Mas amanhecia o dia... e de novo, nos fazíamos companhia.
É, esse danado de amor virtual viciiiiia!
A gente fica dependente daquele carinho, daquele ninho.
Daquele amor eletrônico, daquele carinho astronômico.
Oi Amor!
Oi meu bem...
Hummmm... O que você tem? Tô sentindo uma tristezazinha...
É ... tô na minha
Vontade de lhe tocar... de lhe ver e de lhe beijar...
E nessa hora era uma chateação. Porque eu o tinha, mas ele não era meu, eu era dele, mas ele não me tinha...
Ô coisa complicadinha.
Era um amor virtual, mas era real...
Todo dia de manhã o meu sorriso se iluminava
Antes de tomar café eu já conectava
E quando puxava meus mails, nem queria saber de quem veio
Ia direto na listinha do correio, procurando o seu e-mail...
Até que saltava aos meus olhos "sempreseu@hotmail.com"
Meu amor, hoje vou demorar a aparecer,
Tô com trabalho até morrer...
Mas prometo... não vou lhe esquecer.
Daquelas palavras eu me alimentava.
Eu as comia, eu as bebia, eu as sonhava. Escrevia um, dois, três... dez mails por dia
Era uma agonia. O assunto não terminava.
Mas se eu quisesse dava pra resumir e em bem poucas palavras...
Eu o amava!
A gente tinha uma afinidade, uma sintonia, um amor tão grande.
Uma eterna energia... Fazíamos planos... vivíamos de sonhos.
Tinha hora que parecia que tudo ia ser verdade... que bobagem.
Um dia ele me falou:
Lindinha, tenho tanto medo de perder o seu amor
De você se afastar
De me fazer perceber que tudo acabou...
Eu respondi:
Benzinho, não tem mais solução
Sem você não vivo mais,
Portanto pode ficar em paz, não vou me afastar... com isso pode contar.
Era tão bom saber que ele tinha essa preocupação, porque eu todo dia pensava:
Ai meu Deus, e se ele arruma uma namorada?
Minha vida estaria acabada!
Bonequinha, esse fim de semana vou viajar, uns amigos vou encontrar
Ah, eu queria estar lá...
Adoraria lhe levar!
Aí nesse fim de semana eu ficava amargurada. Até chorava...
Uma saudade, uma solidão, um medo, uma insatisfação...
Navegava em sites de poesias, fazia umas rimas e sofria.
Entrava em sites de horóscopos, mapa astral, anjos e o escambal.
Tudo pra ver se aquela nossa relação era normal.
E quando finalmente chegava segunda-feira
Eu esquecia toda aquela besteira.
Amorzinhoooooooooooo!!!!!
Que saudade... nem valeu a pena a viagem,
Longe de você é desse jeito... Nada fica perfeito.
Aí nesse dia comecei a pensar...
Que coisa estranha... Onde nessa história é o meu lugar?
Pois se vivemos sempre longe, se nem nos conhecemos... Por quê tanto sofremos?
Acho que ele pensou igual,
Começamos a nos afastar
Sem nada dizer, sem nada reclamar.
Sempre seu...
Acabou sendo uma ilusão que morreu...
Mas ainda hoje eu me lembro dele com saudade... com carinho e com amizade.
É, foi assim... ele passou por mim
E eu fui atrás... e foi bom demais.
E você? Já viveu isso? Ou não?
Fala a verdade... abre seu coração!
Enquanto a cidade inteira vai digerindo o seu jantar
E todas as ruas e praças se lavam com essência de luar
Enquanto as estátuas famosas bebem brandies e aveledas
E as tílias se entreolham meigamente nas alamedas
Vou guardando as margens
Velando os lírios do jardim
Enquanto a meia-noite encerra mais uma sessão
E o senso-comum ressona tranquilo e pesado no colchão
Enquanto a cidade inteira lava os dentes e faz toilete
E os taxistas recolhem as sombras que restam da noite
Vou guardando as margens
Velando os lírios do jardim
Enquanto a luz do promontório ensina a costa ao barqueiro
E arde o rum forte no zimbório e traz lucidez ao faroleiro
Vou pondo malha sobre malha com o labor dum tapeceiro
Palavra, acorde, som, a talha e a devoção dum mestre-oleiro
Vou guardando as margens
Velando os lírios do jardim
Enquanto a cidade inteira vai feliz na sua faina
E o Sol boceja na ladeira ao som do martelo e da plaina
Saúdo a bruma e o orvalho e a luz do dia madrugado
Guardo as cartas no baralho meu sono é enfim chegado
Vou guardando as margens
Velando os lírios do jardim