sexta-feira, outubro 29, 2010

Vem


Tanto querer e desejo, tanta vontade e tão forte o impulso...

Tenho de te BEIJAR. Preciso de te BEIJAR...

Com INTENSIDADE
Com ABUNDÂNCIA
Com TERNURA
Com CARINHO
Com DESEJO
Com PAIXÃO
Com AMOR



Toni
Foto retirada da net

sexta-feira, outubro 22, 2010

Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo

Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo
nem fazer explodir a madrugada nos teus olhos.

Eu quero apenas amar-te lentamente
como se todo o tempo fosse nosso
como se todo o tempo fosse pouco
como se nem sequer houvesse tempo.

Soltar os teus seios.
Despir as tuas ancas.
Apunhalar de amor o teu ventre.



Joaquim Pessoa

terça-feira, outubro 19, 2010

Mais é de mais

Conversávamos, depois do jantar, do poder das palavras num mundo onde elas são permanentemente prostituídas e adulteradas.


Disse o meu filho mais velho, o Pedro: "As palavras enchem ideias, não enchem barrigas." Há um fundo de verdade nesta afirmação. Mas eu acredito, e sempre acreditei, que as palavras podem modificar o destino de milhões de homens, e provocá-los a agir. O que está a acontecer no nosso país é elucidativo. O paradigma está a alterar-se, já se alterou, e os nossos políticos, culturalmente muito enfezados, agem na mesma esquadria de há trinta e quarenta anos. Quero dizer: obedecem, cegamente, ao que do exterior lhes sussurram, e abdicam de criar um esquema próprio de solução dos problemas nacionais.


Sei que é difícil, mas não impossível. Berlim manda e Bruxelas é o porta-voz. Porém, alguém tem de bater o pé a essa hegemonia. Desde Bismarck que o alemão vem por aí abaixo, com armas na mão. E houve 1914-18 e 1939-45. Derrotados e humilhados, serviram de veículo a ressentimentos seus e de outros. A Alemanha não precisa da bomba nem do campo de concentração para ser a potência dominante na Europa. Chega-lhe e sobra-lhe a força da economia.


Existimos, como várias vezes tenho escrito e dito, numa democracia de superfície e de aparências. Vejamos: podemos, em consciência, aceitar um regime onde, há mais de trinta anos, o PSD e o PS são reinantes?, ignorando-se a importância dos dois milhões de eleitores do PCP, do Bloco de Esquerda e de outras organizações políticas? O sistema foi minuciosamente organizado para que as coisas assim fossem e sejam. Porém, o tempo é outro. E está a ver-se o imbróglio a que a birra de dois cavalheiros tem conduzido o País e feito crescer as nossas angústias.


A Direita e a Extrema-Direita avançam em toda a Europa. A Europa é uma massa inerte que só existe porque a Alemanha assim o permite. Basta atentar na teimosia abstrusa de Ângela Merkel, no pungente problema grego, para nos apercebermos do carácter unilateral e arbitrário de uma política que somente dá garantias e suporte aos mais fortes. O renascimento da xenofobia, do racismo e dos movimentos neonazis não acontece por acaso. A Esquerda abandonou as velhas bandeiras que a qualificavam, e esqueceu as causas que a iluminavam. Só agora, um pouco em Itália e em França, se discute e debate o torção a que a História foi submetida. Os novos problemas que emergiram, com o financiamento do capital, o movimento migratório, a fome como endemia, a exclusão (ideológica, cultural, identitária) a que assistimos, um pouco por todo o lado, assemelham-se aos anos que antecederam a queda da República de Weimar.


Em Portugal, cujo provincianismo atingiu as fronteiras do batatolino, dois dirigentes partidários andam às turras, e os seus discursos levam-nos até ao desgosto da palavra. Neles nada existe de original, de arrojado, de desafiante e de motivador. Neste caso, as palavras não enchem ideias, porque os seus protagonistas não as têm, nem enchem barrigas porque as deles já estão a abarrotar.


Todos os dias o meu e-mail traz-me notícias desacreditantes. É a mentira sem pejo, a falta de carácter e de grandeza, ou as reformas (duas, três e quatro!) de "gestores" que pouco mais fizeram do que se cuidar a eles próprios, através de contratos verticais que lhes garantem largos e felizes anos sem susto nem aflição. E nunca será de mais insistir nesta indignidade, quando um governo, dito socialista, pratica a "blitzkrieg" às vidas dos portugueses mais fragilizados, mais impotentes e mais incapazes de reagir. Quando foi dos salários em atraso e da fome grassante em Setúbal, o bispo D. Manuel Martins foi o tutor de um protesto que chegou à Imprensa estrangeira. É verdade que a Igreja actual tem tomado outras formas de indignação, e as suas organizações desempenham um papel importantíssimo na luta contra a fome e a miséria. É grato, mas não chega. Exactamente porque a Igreja, por si só, não pode resolver a questão, que é, sobretudo, uma questão política.


Como se pode alterar estas situações, tendo presente que o "mercado", a finança, o capitalismo, enfim, tem nas mãos as rédeas de todos os poderes e de todas as decisões?


Creio que o valor moral do ser humano está dependente das circunstâncias. Ortega o disse. Todavia, o ser humano dispõe de força suficiente para alterar as circunstâncias. Historicamente, os ensinamentos são de molde a alimentar as nossas esperanças e a estimular as nossas desafrontas. Não podemos mais admitir as humilhações a que diariamente somos submetidos. Nem aceitar viver nesta mentira constante, nesta falta de escrúpulos e de pudor.


Mais é de mais. De que estamos à espera?


Baptista Bastos in Jornal de Negócios

segunda-feira, outubro 18, 2010

Por amor serás


Despida como uma Maravilha,

Descoberta como um Mundo,

Interpretada como um Mapa,

Cuidada como um Tesouro,

Desejada como um Sonho,

Adorada como uma Musa,

Beijada como uma Deusa,

Acariciada como um Anjo,

Lambida como um Doce,

Folheada como um Livro,

Tocada como um Piano,

Lida como um Poema,

AMADA COMO UMA MULHER.



Toni
Foto retirada da net

sexta-feira, outubro 15, 2010

Diz o avô e diz o bebé

Hoje é daqueles dias em que preferíamos não sair da cama.
Hoje passaremos a ganhar menos e a pagar mais. É como uma hiper-inflação num só dia: desvalorizamos. Hoje há OE. Um OE imposto. Um OE de impostos.

São mais impostos, novas taxas e serviços obrigatórios, menos deduções e benefícios. Para toda a gente, generalizado, pelas formas mais surpreendentes. A necessidade aguçou o engenho do Ministério das Finanças, que confeccionou um Orçamento pudim "Boca Doce: é bom, é bom, é. Diz o avô e diz o bebé". É bom, é...

Literalmente: o avô paga mais IRS na sua pensão e o bebé passa a ser contribuinte obrigatório à nascença. Ao mesmo tempo que cortam o cordão umbilical que o liga à mãe, atam-lhe o cordão fiscal que o ligará ao Estado. E como para ser contribuinte é preciso comprar o Cartão do Cidadão: são 7,5 euros, se faz favor.

Andam a brincar com o bebé. Há uns anos baixaram-lhe o IVA às fraldas, depois subiram; no ano passado prometeram-lhe um cheque de 200 euros que nunca lhe entregaram; este ano obrigam-no a registo fiscal. Não é para ter graça, é um exemplo do nível a que chega este Orçamento na busca de qualquer receita, e uma parábola para o que é a política orçamental portuguesa: a total inconstância fiscal, que desce num ano o que no outro sobe, sem racionalidade nem previsibilidade. Quem investe num País assim? Nem os portugueses.

Não é só essa lista de negra de impostos (IRS, IRC, IVA, IMI...), através de aumentos de taxas e de menos deduções e benefícios. Hoje, muitos medicamentos estão mais caros que ontem, hoje há portagens nas Scut, hoje são anunciados aumentos das tarifas da electricidade... Salve-se o que se puder: os fundos de pensões dos bancários são transferidos à revelia do chumbo do sindicato e as portagens são impostas atropelando os tribunais. Há uma inacreditável caça ao turista (a quem se vai cobrar quase cem euros para andar nas Scut!), pede-se que as empresas de telecomunicações paguem o Cinema em vez do Ministério da Cultura...

Portugal está desesperado. Já é cansativo repetir a revolta contra quem na política mentiu até hoje. É preferível prevenir quem nos vai mentir a partir daqui. Porque depois da mentira de partidos do centro virá a demagogia de partidos das extremas. Quer ver? Com a informação revelada nesta edição, tanto se pode dizer que o novo imposto sobre a banca vai gerar cem milhões de euros e o corte de salários poupar mil milhões, como afirmar que o Governo tira à banca um décimo do que tira aos funcionários públicos... A quem quer incitar a revolta é preciso fazer o aviso: cuidado com o que deseja, pode tornar-se realidade. A estabilidade social vai ser testada em Portugal.

Este Orçamento não impõe a realidade, a realidade é que impôs este Orçamento. Não é coragem, mas desespero, o que nos traz a este vórtice danado. O lirismo do crescimento económico para o próximo ano persiste, aliás, o que é pouco prudente para quem quer persuadir credores. Enquanto isso, o PSD finge que pode não aprovar o Orçamento e o PS entretém-se em golpes palacianos de comunicação para sacudir a água para o capote da oposição. Do seu palácio falido, o primeiro-ministro olha os seus contribuintes. "Ave Socrates, morituri te salutant" - aqueles que vão pagar saúdam-te.



Pedro Santos Guerreiro in Jornal de Negócios

A noite na ilha


Dormi contigo a noite inteira junto ao mar, na ilha.
Selvagem e doce eras entre o prazer e o sono,
entre o fogo e a água.
Talvez bem tarde nossos
sonos se uniram na altura e no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento move,
em baixo como raízes vermelhas que se tocam.
Talvez teu sono se separou do meu e pelo mar escuro
me procuravas como antes, quando nem existias,
quando sem te enxergar naveguei a teu lado
e teus olhos buscavam o agora - pão,
vinho, amor, e cólera - te dou, cheias as mãos,
porque tu és a taça que só esperava
os dons da minha vida.
Dormi junto contigo a noite inteira,
enquanto a escura terra gira com vivos e com mortos,
de repente desperto e no meio da sombra meu braço
rodeava tua cintura.
Nem a noite nem o sonho puderam separar-nos.
Dormi contigo, amor, despertei, e tua boca
saída de teu sono me deu o sabor da terra,
de água-marinha, de algas, de tua íntima vida,
e recebi teu beijo molhado pela aurora
como se me chegasse do mar que nos rodeia.



Pablo Neruda
Foto retirada da net

quarta-feira, outubro 13, 2010

A Lenda de El-Rei D. Sebastião


Depois de Alcácer Quibir
El Rei D. Sebastião
Perdeu-se num labirinto
Com seu cavalo real

As bruxas e adivinhos
Nas altas serras beirãs
Juravam que nas manhãs
De cerrado de Nevoeiro
Vinha D. Sebastião

Pastoras e trovadores
Das regiões litorais
Afirmaram terem visto
Perdido entre os pinhais
El Rei D. Sebastião

Ciganos vindos de longe
Falcatos desconhecidos
Tentando iludir o Povo
Afirmaram serem eles
El Rei D. Sebastião
E que voltava de novo

Todos foram desmentidos
Condenados às gales
Pois nas praias dos Algarves
Trazidos pelas marés
Encontraram o cavalo
Farrapos do seu gibão
Pedaços de nevoeiro
A espada e o coração
De El Rei D. Sebastião

Depois de Alcácer Quibir
Virá D. Sebastião
E uma lenda nasceu
Entre a bruma do passado
Chamam-lhe o desejado
Pois que nunca mais voltou
El Rei D. Sebastião



Quarteto 1111
Imagem retirada da net

segunda-feira, outubro 11, 2010

As Farpas

“A classe eclesiástica não significa a realização de uma crença; é ainda uma multidão de desocupados que querem viver à custa do Estado. A vida militar não é uma carreira, como se compreendia outrora, é uma ociosidade organizada por conta do Estado. Os proprietários procuram viver à custa do Estado vindo ser deputados a 2$500 réis por dia. A própria indústria faz-se protecionar pelo Estado e trabalha sobretudo em vista do Estado. A imprensa até certo ponto vive também do Estado. A ciência depende do Estado. O Estado é a esperança das famílias pobres, e das casas arruinadas; é a ocupação natural das mediocridades; é o usufruto da burguesia. Ora como o Estado, pobre, paga tão pobremente que ninguém se pode libertar da sua tutela para ir para a indústria ou para o comércio, esta situação perpetua-se de pais a filhos como uma fatalidade”.


Eça de Queirós, em 1871, in "As Farpas"

sexta-feira, outubro 08, 2010

As Farpas

“…Nós estamos num estado comparável sómente à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesma trapalhada económica, mesmo abaixamento de caracteres, mesma decadência de espírito.

Nos livros estrangeiros, nas revistas, quando se fala num país caótico e que pela sua decadência progressiva, poderá… vir a ser riscado do mapa da Europa, citam-se a par, a Grécia e Portugal..”



Eça de Queirós, em 1872, in "As Farpas"

quarta-feira, outubro 06, 2010

As Farpas

"O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os carácteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências. Diz-se por toda a parte: o país está perdido!"


Eça de Queirós, em 1871, no primeiro número d'As Farpas