Hoje é daqueles dias em que preferíamos não sair da cama.
Hoje passaremos a ganhar menos e a pagar mais. É como uma hiper-inflação num só dia: desvalorizamos. Hoje há OE. Um OE imposto. Um OE de impostos.
São mais impostos, novas taxas e serviços obrigatórios, menos deduções e benefícios. Para toda a gente, generalizado, pelas formas mais surpreendentes. A necessidade aguçou o engenho do Ministério das Finanças, que confeccionou um Orçamento pudim "Boca Doce: é bom, é bom, é. Diz o avô e diz o bebé". É bom, é...
Literalmente: o avô paga mais IRS na sua pensão e o bebé passa a ser contribuinte obrigatório à nascença. Ao mesmo tempo que cortam o cordão umbilical que o liga à mãe, atam-lhe o cordão fiscal que o ligará ao Estado. E como para ser contribuinte é preciso comprar o Cartão do Cidadão: são 7,5 euros, se faz favor.
Andam a brincar com o bebé. Há uns anos baixaram-lhe o IVA às fraldas, depois subiram; no ano passado prometeram-lhe um cheque de 200 euros que nunca lhe entregaram; este ano obrigam-no a registo fiscal. Não é para ter graça, é um exemplo do nível a que chega este Orçamento na busca de qualquer receita, e uma parábola para o que é a política orçamental portuguesa: a total inconstância fiscal, que desce num ano o que no outro sobe, sem racionalidade nem previsibilidade. Quem investe num País assim? Nem os portugueses.
Não é só essa lista de negra de impostos (IRS, IRC, IVA, IMI...), através de aumentos de taxas e de menos deduções e benefícios. Hoje, muitos medicamentos estão mais caros que ontem, hoje há portagens nas Scut, hoje são anunciados aumentos das tarifas da electricidade... Salve-se o que se puder: os fundos de pensões dos bancários são transferidos à revelia do chumbo do sindicato e as portagens são impostas atropelando os tribunais. Há uma inacreditável caça ao turista (a quem se vai cobrar quase cem euros para andar nas Scut!), pede-se que as empresas de telecomunicações paguem o Cinema em vez do Ministério da Cultura...
Portugal está desesperado. Já é cansativo repetir a revolta contra quem na política mentiu até hoje. É preferível prevenir quem nos vai mentir a partir daqui. Porque depois da mentira de partidos do centro virá a demagogia de partidos das extremas. Quer ver? Com a informação revelada nesta edição, tanto se pode dizer que o novo imposto sobre a banca vai gerar cem milhões de euros e o corte de salários poupar mil milhões, como afirmar que o Governo tira à banca um décimo do que tira aos funcionários públicos... A quem quer incitar a revolta é preciso fazer o aviso: cuidado com o que deseja, pode tornar-se realidade. A estabilidade social vai ser testada em Portugal.
Este Orçamento não impõe a realidade, a realidade é que impôs este Orçamento. Não é coragem, mas desespero, o que nos traz a este vórtice danado. O lirismo do crescimento económico para o próximo ano persiste, aliás, o que é pouco prudente para quem quer persuadir credores. Enquanto isso, o PSD finge que pode não aprovar o Orçamento e o PS entretém-se em golpes palacianos de comunicação para sacudir a água para o capote da oposição. Do seu palácio falido, o primeiro-ministro olha os seus contribuintes. "Ave Socrates, morituri te salutant" - aqueles que vão pagar saúdam-te.
Pedro Santos Guerreiro in Jornal de Negócios
sexta-feira, outubro 15, 2010
A noite na ilha
Dormi contigo a noite inteira junto ao mar, na ilha.
Selvagem e doce eras entre o prazer e o sono,
entre o fogo e a água.
Talvez bem tarde nossos
sonos se uniram na altura e no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento move,
em baixo como raízes vermelhas que se tocam.
Talvez teu sono se separou do meu e pelo mar escuro
me procuravas como antes, quando nem existias,
quando sem te enxergar naveguei a teu lado
e teus olhos buscavam o agora - pão,
vinho, amor, e cólera - te dou, cheias as mãos,
porque tu és a taça que só esperava
os dons da minha vida.
Dormi junto contigo a noite inteira,
enquanto a escura terra gira com vivos e com mortos,
de repente desperto e no meio da sombra meu braço
rodeava tua cintura.
Nem a noite nem o sonho puderam separar-nos.
Dormi contigo, amor, despertei, e tua boca
saída de teu sono me deu o sabor da terra,
de água-marinha, de algas, de tua íntima vida,
e recebi teu beijo molhado pela aurora
como se me chegasse do mar que nos rodeia.
Pablo Neruda
Foto retirada da net
quarta-feira, outubro 13, 2010
A Lenda de El-Rei D. Sebastião
Depois de Alcácer Quibir
El Rei D. Sebastião
Perdeu-se num labirinto
Com seu cavalo real
As bruxas e adivinhos
Nas altas serras beirãs
Juravam que nas manhãs
De cerrado de Nevoeiro
Vinha D. Sebastião
Pastoras e trovadores
Das regiões litorais
Afirmaram terem visto
Perdido entre os pinhais
El Rei D. Sebastião
Ciganos vindos de longe
Falcatos desconhecidos
Tentando iludir o Povo
Afirmaram serem eles
El Rei D. Sebastião
E que voltava de novo
Todos foram desmentidos
Condenados às gales
Pois nas praias dos Algarves
Trazidos pelas marés
Encontraram o cavalo
Farrapos do seu gibão
Pedaços de nevoeiro
A espada e o coração
De El Rei D. Sebastião
Depois de Alcácer Quibir
Virá D. Sebastião
E uma lenda nasceu
Entre a bruma do passado
Chamam-lhe o desejado
Pois que nunca mais voltou
El Rei D. Sebastião
Quarteto 1111
Imagem retirada da net
segunda-feira, outubro 11, 2010
As Farpas
“A classe eclesiástica não significa a realização de uma crença; é ainda uma multidão de desocupados que querem viver à custa do Estado. A vida militar não é uma carreira, como se compreendia outrora, é uma ociosidade organizada por conta do Estado. Os proprietários procuram viver à custa do Estado vindo ser deputados a 2$500 réis por dia. A própria indústria faz-se protecionar pelo Estado e trabalha sobretudo em vista do Estado. A imprensa até certo ponto vive também do Estado. A ciência depende do Estado. O Estado é a esperança das famílias pobres, e das casas arruinadas; é a ocupação natural das mediocridades; é o usufruto da burguesia. Ora como o Estado, pobre, paga tão pobremente que ninguém se pode libertar da sua tutela para ir para a indústria ou para o comércio, esta situação perpetua-se de pais a filhos como uma fatalidade”.
Eça de Queirós, em 1871, in "As Farpas"
sexta-feira, outubro 08, 2010
As Farpas
“…Nós estamos num estado comparável sómente à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesma trapalhada económica, mesmo abaixamento de caracteres, mesma decadência de espírito.
Nos livros estrangeiros, nas revistas, quando se fala num país caótico e que pela sua decadência progressiva, poderá… vir a ser riscado do mapa da Europa, citam-se a par, a Grécia e Portugal..”
Eça de Queirós, em 1872, in "As Farpas"
Nos livros estrangeiros, nas revistas, quando se fala num país caótico e que pela sua decadência progressiva, poderá… vir a ser riscado do mapa da Europa, citam-se a par, a Grécia e Portugal..”
Eça de Queirós, em 1872, in "As Farpas"
quarta-feira, outubro 06, 2010
As Farpas
"O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os carácteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências. Diz-se por toda a parte: o país está perdido!"
Eça de Queirós, em 1871, no primeiro número d'As Farpas
Eça de Queirós, em 1871, no primeiro número d'As Farpas
terça-feira, outubro 05, 2010
segunda-feira, outubro 04, 2010
Manifesto dos economistas aterrorizados
Um documento da Associação Francesa de Economia Política, para ler aqui:
Manifesto dos economistas aterrorizados
Imagem de Marcos Miller
sexta-feira, outubro 01, 2010
quarta-feira, setembro 29, 2010
"E o corpo dela de tocaia suspenso entre o céu e a terra, oferecendo-se àquela língua sábia, enquanto o coração, ai dele, se afogava em marés ilimitadas. A sua branca, feminina garganta navegou em todos os cambiantes do murmúrio e do grito, e na hora vermelha, solta de todas as amarras, ouviu-se dizer palavras espantosas, morde-me, inunda-me, mata-me, quero que todos saibam que sou a tua coisa, a tua fêmea, ai."
Rosa Lobato Faria in "Os Pássaros de Seda"
Imagem retirada da net
segunda-feira, setembro 27, 2010
sexta-feira, setembro 24, 2010
Dou-te
Dou-te a alma
Pura...
A calma
Que perdura...
A consciência
Madura...
Dou-te um arrobo
De paixão...
Um comichão
Rompendo
O coração...
Dilacerando
A razão...
Dou-te a cópula
Indecente...
O gozo
Incandescente...
Um mar de prazer...
Dou-te os beijos
Alucinantes...
As roçadas
Torturantes...
A carne
Delirante...
Dou-te o arrebato
Do encontro
Insensato...
Na rua
No mato...
Dou-te todo
O meu viver...
O meu ser...
Até morrer
De amor por você...
Letícia Marques
Foto retirada da net
quarta-feira, setembro 22, 2010
Tua nudez
A rosa:
Tua nudez feita graça.
A fonte:
Tua nudez feita água.
A estrela:
Tua nudez feita alma.
Manuel Bandeira
Foto retirada da net
segunda-feira, setembro 20, 2010
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner
Imagem retirada da net
sexta-feira, setembro 17, 2010
Momentos
Numa noite normal com o passado largado da memória, um homem reencontra, no lugar a que chama casa, lembranças de um tempo que viveu.
Fragmentos de pura felicidade e instantes de sublime partilha, surgem como apontamentos de esperança de um presente que não voltará a ser o mesmo.
quarta-feira, setembro 15, 2010
Perfilados de medo
Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.
Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos.
Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.
Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido...
Alexandre O'Neill
Foto retirada da net
segunda-feira, setembro 13, 2010
Portugal há 114 anos. O que mudou?
"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.
A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.
Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar."
Guerra Junqueiro
Escrito em 1896
sábado, setembro 11, 2010
sexta-feira, setembro 10, 2010
Alcácer que vier
Em Alcácer eram verdes as aves do pensamento
Eram tão leves tão leves como as lanternas do vento
Em Alcácer eram verdes os cavalos encarnados
Eram tão fortes tão negros como os punhos decepados
Em Alcácer eram verdes as armas que eu inventei
Eram tão leves tão leves tão leves que nem eu sei
Em Alcácer eram verdes os homens que não voltaram
Eram tão verdes tão verdes como os campos que deixaram
Em Alcácer eram verdes as maçãs feitas de lume
Eram tão frias tão frias como as dobras do ciúme
Em Alcácer eram verdes estas palavras que agora
são tão caladas tão cernes tão feitas desta demora
Em Alcácer eram verdes as flores da sepultura
Eram tão verdes tão verdes tão verdes como a loucura
Em Alcácer era verde meu amor o teu olhar
Era tão verde tão verde quase à beira de cegar
Em Alcácer eram verdes os lençóis onde morri
Eram tão frios tão verdes como os campos que eu não vi
Em Alcácer eram verdes as feridas do meu país
Eram tão fundas tão verdes como este mal de raiz
Joaquim Pessoa
Imagem retirada da net
quarta-feira, setembro 08, 2010
Não me Peçam Razões...
Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.
Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.
Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.
José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"
Foto de Tom Stoddart
segunda-feira, setembro 06, 2010
Fala do Velho do Restelo ao Astronauta
Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.
Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.
No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.
Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome,
E são brinquedos as bombas de napalme.
José Saramago
Foto retirada da net
sexta-feira, setembro 03, 2010
Ausência
Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.
Sophia de Mello Breyner Andersen
Foto retirada da net
quarta-feira, setembro 01, 2010
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