
Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos).
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.
Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimentos demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.
Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.
Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.
Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.
E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.
Ricardo Reis
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Quinta-feira, Novembro 12, 2009
Ode de Ricardo Reis
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Quarta-feira, Novembro 11, 2009
Ode de Ricardo Reis

Antes de nós nos mesmos arvoredos
Passou o vento, quando havia vento,
E as folhas não falavam
De outro modo do que hoje.
Passamos e agitamo-nos debalde.
Não fazemos mais ruído no que existe
Do que as folhas das árvores
Ou os passos do vento.
Tentemos pois com abandono assíduo
Entregar nosso esforço à Natureza
E não querer mais vida
Que a das árvores verdes.
Inutilmente parecemos grandes.
Salvo nós nada pelo mundo fora
Nos saúda a grandeza
Nem sem querer nos serve.
Se aqui, à beira-mar, o meu indício
Na areia o mar com ondas três o apaga,
Que fará na alta praia
Em que o mar é o Tempo?
Ricardo Reis
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Terça-feira, Novembro 10, 2009
Ode de Ricardo Reis

Nada fica de nada. Nada somos.
Um pouco de sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespirável treva que nos pese
Da humilde terra imposta,
Cadáveres adiados que procriam.
Leis feitas, estátuas vistas, odes findas -
Tudo tem cova sua. Se nós carnes
A que um íntimo sol dá sangue, temos
Poente, por que não elas?
Somos contos contando contos, nada.
Ricardo Reis
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Segunda-feira, Novembro 09, 2009
Ode de Ricardo Reis

(...)
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.
Ricardo Reis
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Sexta-feira, Novembro 06, 2009
Nota 10
Na prova do Curso de Química, foi perguntado:
- Qual a diferença entre SOLUÇÃO e DISSOLUÇÃO?
Resposta de um aluno:
- Colocar UM dos Nossos Políticos num Tanque de Ácido é uma DISSOLUÇÃO.
Colocar TODOS é uma SOLUÇÃO.
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Quinta-feira, Novembro 05, 2009
Perder
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Quarta-feira, Novembro 04, 2009
P'ra Sempre

O nosso amor de sempre
Brilhará, p'ra sempre
Ai, meu amor
O que eu já chorei por ti
Mas sempre
P'ra sempre
Vou gostar de ti
Xutos & Pontapés
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Terça-feira, Novembro 03, 2009
Vem

Estou louco para te amar.
Num longo e terno amor quando, na cama, te encontrar nua.
Os nossos corpos, colados, enlaçam-se na urgência do desejo.
E com toda a pressa do mundo, beijo-te o pescoço, seguro-te os cabelos, digo-te que és linda, deliciosa...
Boca na boca, trocamos os mais ardentes beijos. As nossas línguas bailam, enroscam-se, deslizam, amam-se...
Como se não houvesse tempo, vou descendo com a minha boca, com a minha língua...
Abro-te as pernas e, percorrendo-te com a língua, saboreio-te lentamente, provo-te com prazer, chupo-te, proclamo-te minha.
Rendida, gemes amorosamente, levas-me mais longe, mais fundo... e perco-me, deliciado, nos encantos deste amor.
Toni
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Segunda-feira, Novembro 02, 2009
Cala a boca
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Sexta-feira, Outubro 30, 2009
Mulheres de Atenas
Mirem-se no exemplo
daquelas mulheres de Atenas
Vivem pros seu maridos,
orgulho e raça de Atenas
Quando amadas, se perfumam
Se banham com leite, se arrumam
Suas melenas
Quando fustigadas não choram
Se ajoelham, pedem, imploram
Mais duras penas
Cadenas
Mirem-se no exemplo
daquelas mulheres de Atenas
Sofrem pros seus maridos,
poder e força de Atenas
Quando eles embarcam, soldados
Elas tecem longos bordados
Mil quarentenas
E quando eles voltam sedentos
Querem arrancar violentos
Carícias plenas
Obscenas
Mirem-se no exemplo
daquelas mulheres de Atenas
Despem-se pros maridos,
bravos guerreiros de Atenas
Quando eles se entopem de vinho
Costumam buscar o carinho
De outras falenas
Mas no fim da noite, aos pedaços
Quase sempre voltam pros braços
De suas pequenas
Helenas
Mirem-se no exemplo
daquelas mulheres de Atenas
Geram pros seus maridos
os novos filhos de Atenas
Elas não têm gosto ou vontade
Nem defeito nem qualidade
Têm medo apenas
Não têm sonhos, só têm presságios
O seu homem, mares, naufrágios
Lindas sirenas
Morenas
Mirem-se no exemplo
daquelas mulheres de Atenas
Temem por seus maridos,
heróis e amantes de Atenas
As jovens viúvas marcadas
E as gestantes abandonadas
Não fazem cenas
Vestem-se de negro, se encolhem
Se conformam e se recolhem
Às suas novenas
Serenas
Mirem-se no exemplo
daquelas mulheres de Atenas
Secam por seus maridos,
orgulho e raça de Atenas
Chico Buarque
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Quinta-feira, Outubro 29, 2009
Coitado! que em um tempo choro e rio
Coitado! que em um tempo choro e rio;
Espero e temo, quero e aborreço;
Juntamente me alegro e entristeço;
Duma cousa confio e desconfio.
Voo sem asas; estou cego e guio;
E no que valho mais menos mereço.
Calo e dou vozes, falo e emudeço,
Nada me contradiz, e eu aporfio.
Queria, se ser pudesse, o impossível;
Queria poder mudar-me e estar quedo;
Usar de liberdade e estar cativo;
Queria que visto fosse e invisível;
Queira desenredar-me e mais me enredo:
Tais os extremos em que triste vivo!
Luis de Camões
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Quarta-feira, Outubro 28, 2009
Tudo o que faço ou medito

Tudo o que faço ou medito
Fica sempre na metade.
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada é verdade.
Que nojo de mim me fica
Ao olhar para o que faço!
Minha alma é lúcida e rica,
E eu sou um mar de sargaço.
Fernando Pessoa
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Terça-feira, Outubro 27, 2009
Senhora, partem tão tristes

Senhora partem tão tristes
Meu olhos por vós, meu bem
Que nunca tão tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.
Tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
em mil vezes que da vida.
Partem tão tristes, os tristes,
tão fora de esperar bem
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.
João Roiz de Castelo Branco
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Segunda-feira, Outubro 26, 2009
Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.
Miguel Torga
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Sexta-feira, Outubro 23, 2009
Short Note

(...)
I've got wild staring eyes
I've got a strong urge to fly
But I've got nowhere to fly to
(...)
Roger Waters - Nobody Home (The Wall)
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Quinta-feira, Outubro 22, 2009
Noite mágica

Estás nos meus braços, no meu colo... Vamos perder-nos em horas de paixão.
Sussuro-te entre beijos, carinhos e suspiros, "adoro-te", "quero-te", "desejo-te".
Dispo-te como sonhei, acaricio-te com ternura, beijo todo o teu corpo, demoro-me a lamber a suculência do teu mel.
E esta emoção, incendeia-me o desejo, preciso de ti com urgência.
Quente e alucinado, entre as tuas pernas, percorro o teu pescoço, o teu peito e vou gemendo, "minha querida", "meu amor".
Rápida, incontrolável e desenfreada, a ejaculação explode, vibrante, nas delícias macias do teu interior quente e húmido.
Seguro-te as ancas, trespassado por intensos e profundos delírios de prazer, tão avassaladores que grito bem alto, com as tuas coxas na minha cintura, a confissão de todo o meu amor.
Toni
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Quarta-feira, Outubro 21, 2009
Pedra Filosofal
Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
António Gedeão in Movimento Perpétuo, 1956
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Terça-feira, Outubro 20, 2009
Se conduzir...

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Segunda-feira, Outubro 19, 2009
Livro de Horas

Aqui diante de mim,
eu, pecador, me confesso
de ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
que vão ao leme da nau
nesta deriva em que vou.
Me confesso
possesso
das virtudes teologais,
que são três,
e dos pecados mortais,
que são sete,
quando a terra não repete
que são mais.
Me confesso
o dono das minhas horas
O das facadas cegas e raivosas,
e o das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
andanças
do mesmo todo.
Me confesso de ser charco
e luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
que atira setas acima
e abaixo da minha altura.
Me confesso de ser tudo
que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.
Me confesso de ser Homem.
De ser um anjo caído
do tal céu que Deus governa;
de ser um monstro saído
do buraco mais fundo da caverna.
Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu
aqui, diante de mim!
Miguel Torga
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Sexta-feira, Outubro 16, 2009
Come, Solitude
Lacrimas Profundere
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Quinta-feira, Outubro 15, 2009
Diálogos... (II)

O velho pousou o copo no tampo metálico da mesa.
Enquanto atava e desatava as suas recordações, contemplava placidamente as cores vivas do poente.
A mais recente das recordação, foi porém interrompida pela visão daquela bela mulher.
Focava agora toda a atenção, no cabelo cor de mel até ao meio das costas e no corpo esguio e esbelto que, graciosamente, se sentou a seu lado.
A sua pose irradiava serenidade, mas o olhar, dois sois negros sem brilho, era profundamente escuro e vazio.
Então compreendeu. Aquela mulher alta e bela, estava ali por sua causa.
- Porque te pareces tanto com ela? - perguntou.
- Para não te assustares.
- Queres falar-me...
O olhar negro, sem brilho e vazio, fixou-o. A perspicácia do velho desconcertou-a:
- Não costumo ter oportunidade... Acho que gostam de me manter ocupada.
- Vem comigo. Caminhemos...
A conversa decorreu serena, porém, cheia de curiosidades, como se dois amantes recentes tentassem descobrir o máximo do mundo do outro.
Então, após uma breve pausa, ela afirmou:
- Não foi culpa tua, o que aconteceu.
- Porque dizes isso?
- Porque é o que tu sentes. É da natureza humana...
- Há escolhas certas e há as erradas. E eu acabei com o que me era mais precioso. Disso, sou culpado.
- Um conjunto de circunstâncias que tu nunca podias dominar, assim o determinou. Na hora certa, eu só tinha de estar no lugar certo. E estava... Nunca me atraso.
- Nunca?
- Tudo gira em torno de um equílibrio. Se o perturbamos... Há consequências.
- Então não te atrases comigo.
- Certamente que não. Não abro excepções.
- Não?
- Nunca!
- E não te custa? Quer dizer, em algumas circunstâncias...
- Ás vezes é doloroso fazer o que tem de ser feito. E sim, foi difícil levá-la...
- Vou poder vê-la?
- Suponho que irás encontrá-la.
- Quando voltas... para mim?
- Brevemente...
Toni
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Quarta-feira, Outubro 14, 2009
Also Sprach Zarathustra

"O Estado é o nome do mais frio de todos os monstros gelados. Aliás, ele mente duma maneira fria e a mentira que sai da sua boca é esta: Eu, o Estado, sou o Povo."
"O Estado mente em todas as línguas acerca de bem e do mal; tudo o que ele diga é mentira, tudo o que ele tenha, é roubo. Nele tudo é falso: morde com dentes roubados, o cão malvado."
F. Nietzsche - Assim falou Zaratustra
Imagem - Gustave Dore
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Terça-feira, Outubro 13, 2009
Segunda-feira, Outubro 12, 2009
Diferenças...

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